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Séries interativas

Inovação ao estilo Netflix

Chama-se Bandersnatch e é uma espécie de temporada especial ininterrupta com o tamanho de um filme da saga Black Mirror. A série da Netflix permitiu agora uma experiência interativa que pode mudar o entretenimento como o conhecemos.

Há muito que o entretenimento oferece formatos fechados e pouco divergentes uns dos outros. A era da televisão começou a mudar graças a canais pagos, como a HBO. Foi aí que nasceu, em 1999 (terminou em 2007), a série Sopranos, que transportou a qualidade narrativa e de imagem do cinema para uma série de televisão. Desde então, têm sido inúmeros os exemplos de séries cinematográficas que invadiram o nosso imaginário, e hoje temos exemplos entusiasmantes, como Mad Men ou as aventuras épicas de Guerra dos Tronos – cuja última temporada estreou em abril, pela primeira vez no novo serviço de streaming HBO Portugal.

Neste contexto, a Netflix começou a produzir séries originais em 2013, e logo com um sucesso estrondoso chamado House of Cards, com Kevin Spacey no papel de um perigoso, convincente e manipulador político chamado Francis Underwood. Desde então, o serviço de streaming atingiu já 140 milhões de subscritores, espalhados por 190 países, e produziu dezenas de séries, várias realizadas em países como Espanha, Alemanha ou Dinamarca, e com sucesso internacional.

Uma das vantagens da plataforma de streaming é poder fugir aos formatos convencionais da televisão tradicional, poder jogar com outras regras. Há séries que podem ter episódios de mais de uma hora, outras, entre os 23 ou 30 minutos, dependendo das necessidades da história.

Durante o ano de 2018, a Netflix, que gosta de testar os seus utilizadores e criar, por vezes, grupos específicos para pôr à prova determinados conteúdos coincidentes com os gostos de cada utilizador, começou a testar uma nova solução tecnológica de histórias interativas. Tudo começou com séries de animação para crianças, que passaram a poder escolher, por exemplo, o final de cada episódio ou as personagens.

“AGORA ESCOLHA”, VERSÃO SÉCULO XXI

Os responsáveis da Netflix tiveram bons resultados, pois os jovens aderiram e mostraram entusiasmo com esta nova possibilidade de escolha, a fazer lembrar outros tempos da televisão tradicional, quando existia o chamado Agora Escolha, onde os telespectadores votavam por telefone para escolherem o seu final favorito (mas viam o final que tinha ganho a votação).
A partir daí, o caminho estava aberto para fazer outro tipo de experiências, para um público mais adulto. A escolhida foi Black Mirror, a série distópica de ficção científica que se tornou de culto e que chega a ser referida em estudos científicos, em que cada episódio é uma história completamente diferente, ao estilo curta-metragem. Em vez de estrear uma nova temporada, depois de quatro e um total de 19 episódios, a Netflix e o criador da série britânica, Charlie Brooker, experimentaram, a 28 de dezembro de 2018, um conceito diferente.

Bandersnatch não é uma espécie de episódio (que pode ter 90 ou mais minutos, dependendo das escolhas) dentro do universo Black Mirror, é um conteúdo de entretenimento do princípio ao fim, interativo, repleto de caminhos alternativos e com nada mais nada menos do que seis finais diferentes. Cada final depende das escolhas que os espectadores fazem ao longo da série, sendo que alguns desses finais parecem becos sem saída. E essas escolhas podem ir desde os cereais que uma personagem vai comer até ao que irá responder a alguém, ou se matará ou não outra personagem. O utilizador tem 10 segundos para tomar essa opção e o sistema só funciona em tablet ou computador, e não no televisor, por exemplo.

O nome Bandersnatch não é inocente, pois é uma figura ficcional criada por Lewis Carroll no seu romance de 1872 Alice do Outro Lado do Espelho. O filme, escrito pelo próprio Charlie Brooker, o chamado showrunner – criador e coordenador – da série antológica, passa-se em 1984, quando um jovem programador começa a adaptar um romance de ficção ao estilo "escolha-a-sua-própria-aventura" (um estilo de livros interativos populares há algumas décadas) para um videojogo. Ou seja, o filme aborda a criação de um videojogo que, ele próprio, tenta ter um lado interativo.

Bandersnatch, um esforço complexo

Bandersnatch obrigou o realizador David Slade a gravar dezenas de cenas de formas totalmente diferentes, algumas que nem chegaram a ser apresentadas no resultado final do filme interativo, num esforço complexo. O resultado convenceu muitos fãs da série e a Netflix promete em breve usar este conceito de forma diferente.
Na era do streaming é possível à plataforma ver, por exemplo, quantas tentativas de finais diferentes cada pessoa implementou (e para isso tiveram de voltar atrás no filme). Resultado: um filme de cerca de 90 minutos pode durar alguns dias, consoante as tentativas que forem feitas para serem vistos os vários finais possíveis. A porta para a nova era do entretenimento ficou aberta, embora seja uma experiência mais exigente para os hábitos de alguns espectadores e que, portanto, não será para todos.