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João Paulo e Jorge Sá Couto

“Tal como as grandes tecnológicas, a JP Sá Couto nasceu numa garagem"

No primeiro número da revista Shift, pedimos a João Paulo e a Jorge Sá Couto, fundadores da JP Sá Couto, para falarem sobre a evolução do maior grupo de tecnologias de informação em Portugal e como tudo mudou desde que foi criada a primeira empresa, a JP Sá Couto, há 29 anos. Falou-se da importância incontornável do Magalhães e da TSUNAMI, da criação do jp.group e da diversificação do portefólio de negócios e investimentos. Falou-se de passado, presente e futuro, de mudança e ambição, da persistência que caracteriza as pessoas e os negócios do grupo, com especial destaque para a jp.di, mas também da humildade e integridade que caracteriza o jp.group.

Como é que começou a JP Sá Couto?
João Paulo Sá Couto: Temos que recuar à década de 80, quando se deu a explosão da microinformática. Muitos se recordam dos Atari, dos ZX Spectrum e dos Commodore, ou seja, pela primeira vez os computadores chegavam a muitas casas em Portugal e no mundo. O meu irmão Jorge estava na altura a estudar engenharia e desafiou-me a abrir com ele uma empresa de apoio técnico e formação. Tal como as grandes tecnológicas mundiais, a JP Sá Couto nasceu numa garagem. Ou melhor, numa arrecadação do prédio onde o Jorge morava, em Matosinhos. Foi a 26 de fevereiro de 1987 que nos juntámos para começar a trabalhar num espaço com menos de seis metros quadrados. Mais tarde, a 3 de março de 1989, oficializámos o projeto criando a empresa JP Sá Couto. Mudámo-nos para o Centro Comercial Dallas [N. R.: no Porto]. Éramos três pessoas, mas o espaço só dava para duas, o que nos fez, desde logo, ter sempre alguém fora do escritório e em contacto com o cliente. Foi aí que começou a cultura de proximidade a ser escrita! Por ser o que menos entendia de informática, era eu que andava sempre de um lado para o outro.
Jorge Sá Couto: Quisemos, desde logo, marcar a diferença no mercado com uma mensagem de compromisso e confiança. Por isso mesmo definimos prazos máximos para entrega e preços fixos para reparação. Demorávamos oito dias e tínhamos um preço fixo de 2500 escudos para reparar, por exemplo, um ZX Spectrum, que custava 22 contos e meio. O cliente sabia sempre como contar com a JP Sá Couto. Muitas vezes perdemos algum dinheiro, tivemos de fazer impossíveis para cumprir com a nossa promessa. Mas isso deu-nos confiança e credibilidade.
João Paulo: Nesse ano tínhamos arranjado um grande cliente, a SGO, que era uma empresa de eletrodomésticos, a maior da Área Metropolitana do Porto. Chegávamos a ter 200 computadores para reparar de uma semana para a outra e tivemos de contratar mais uma pessoa, uma técnica. Não era muito comum na altura, mas uma das primeiras pessoas a trabalhar na JP Sá Couto foi uma mulher. Temos imagens muito engraçadas da altura, como, por exemplo, do meu irmão a soldar. O meu irmão era perito em soldar à lupa! Resolvia qualquer problema!

E como é que deram o salto para a distribuição?
João Paulo: Fomos ganhando a confiança dessa rede de lojas e foi fácil entrar na distribuição de equipamentos. Na década de 90 estávamos em grande força com a distribuição. Começámos a ganhar muitos clientes, a diversificar o portefólio com acessórios, impressoras, consumíveis, tudo...

Mas depois também começaram a construir computadores...
João Paulo: Em 1994 decidimos fazer a nossa marca e então criámos a TSUNAMI. Foi a primeira marca de computadores portuguesa.
Jorge: E ninguém sabia que era portuguesa, mas talvez por culpa nossa. Os grandes players japoneses tinham (e têm) muita credibilidade e quisemos, numa ação de marketing, acompanhar um produto de qualidade com uma marca forte.
João Paulo: A partir de 1999 a nossa notoriedade reforçou-se imenso e de 2002 a 2006 todos os computadores de marca do grande retalho, como a Singer ou a Fnac, eram produzidos por nós. Eram cerca de 10 marcas de fabrico nosso e branding de outros. Foi nessa altura que nos mudámos para a atual localização, em Perafita, com mil metros quadrados e 20 pessoas. Mas em tanto espaço até nos perdíamos... [Risos.] Foi também nesse período que ganhámos uma série de prémios e reconhecimentos como maior fabricante, maior número de PC vendidos, os maiores prémios de marcas como a Microsoft, entre outros.
Jorge: Em 2006 fomos n.º 1 em Portugal! Em número de unidades vendidas, mesmo comparando com as maiores marcas mundiais.
João Paulo: Até que chegamos a 2007. Fruto da nossa notoriedade recente, a Microsoft e a Intel desafiaram-nos a apresentar máquinas para o programa e-escolas, um grande concurso do Governo para fornecer computadores a escolas, a alunos e a professores. O grande salto da Internet, com o advento da banda larga e do trabalho das grandes operadoras de telecomunicações, fez com que tivéssemos de alterar estruturalmente a nossa organização. Devido à procura e compromissos de entrega, tínhamos de trabalhar todos os dias até fora de horas e fins de semana, além de percorrer todo o país com meios próprios, mas isso deu-nos uma experiência única!

E o Magalhães surge logo depois…
João Paulo: O programa chamava-se e-escolinhas e iria alargar o e-escolas ao ensino primário. Foi lançado a 30 de junho de 2008, mas ficou conhecido como Magalhães. Concorremos e ganhámos com um computador feito por nós, e o nome é nosso.
Jorge: Esse foi um projeto muito relevante para Portugal. Naquela altura, o país ficou preparado com uma infraestrutura única e demos um salto tecnológico enorme.

João Paulo Sá Couto

É o irmão mais novo de uma família de quatro. Ainda antes dos 20 anos o irmão, Jorge Sá Couto, desafiou-o para fazer um negócio de reparação de computadores no Porto. Nessa empresa, João Paulo assumiu um papel mais comercial de angariação de clientes e de networking, um trabalho em que continuou a participar à mediada que a empresa crescia e se reinventava resultando naquilo que é hoje o universo jp.group. Hoje é CEO do jp.group.

Jorge Sá Couto, chairman do jp.group, o irmão mais velho da dupla de fundadores JP Sá Couto

Jorge Sá Couto, chairman do jp.group, o irmão mais velho da dupla de fundadores JP Sá Couto

A partir daí a empresa mudou?
João Paulo: Tínhamos aqui 150 pessoas e tivemos de juntar mais 180 e fazer dois turnos. A fábrica estava a trabalhar durante 24 horas. Foi um crescimento muito grande da empresa.

E foi com o Magalhães que se internacionalizaram?
João Paulo: O projeto de referência é o da Venezuela, mas depois fizemos o mesmo em quase toda a América Latina. Vendemos uns sete a oito milhões de computadores para a Venezuela ao longo dos anos, dois milhões para a Argentina, um milhão para o Uruguai e para o México, 50 mil para o Peru…
Jorge: Mas não ficámos apenas pela venda de equipamentos. O ecossistema de educação ia muito além disso. Envolvia a criação de fábricas nos países das próprias escolas e formação pedagógica, por isso levámos outros parceiros e criámos emprego e oportunidades, e sobretudo transformámos o paradigma de levar a tecnologia à educação. Houve uma componente social muito forte no nosso projeto.